Em algum momento de 2011 a minha jornada no poker se iniciava. Como a maioria dos jogadores, eu comecei jogando freerolls, jogos baratos online e alguns 'home games' aos finais de semana. Logo o poker se tornou uma paixão e uma atividade frequente no meu dia-a-dia. Eu me lembro das diversas vezes que liguei para o meu pai durante o trabalho dele para discutir alguma mão que joguei online, era um dos nossos assuntos mais frequentes.

É curioso como muitas das percepções que eu tinha no começo da minha história com o poker provaram-se erradas com o passar dos anos. Eu acreditava saber tanto sobre o nosso esporte da mente, mas a verdade é que algumas coisas eu só fui realmente compreender depois que me profissionalizei no final de 2015, passando a encarar o poker de maneira completamente diferente de até então.

Neste artigo, trago algumas visões que eu tinha em relação ao poker que hoje são bem distintas. Talvez você compartilhe alguma das minhas opiniões antigas e com esse texto possa aprender algumas coisas e não precise passar pelo mesmo processo frustrante e lento que é aprender com os próprios erros.


1- O MEU REAL NÍVEL TÉCNICO

Durante os 5 primeiros anos da minha carreira eu brincava que o poker era um hobby lucrativo. Eu comprei meu primeiro carro 0km à vista , paguei minha faculdade, obtive independência financeira, entre outras coisas, a partir dos meus ganhos provenientes do poker. Os bons resultados somados a um pouco de imaturidade e talvez a uma certa arrogância, me fizeram acreditar que eu era talentosa e uma boa jogadora de poker.

Quando o poker 'boom' ocorreu no Brasil, ninguém sabia direito como jogar muito bem e talvez com um pouco mais de astúcia ou até mesmo somente mais disciplina do que os seus adversários, você pudesse ser ganhador. Essa ilusão em relação ao quão boa eu realmente era, me fez ficar acomodada e a não estudar propriamente durante todo esse período. O resultado dessas ações foi um gigante choque de realidade em 2016 quando eu comecei a viajar o mundo para participar de torneios internacionais e a enfrentar oponentes mais capazes dos que eu estava habituada.

 

vivi saliba em acao

 

Foi nessa época que eu compreendi que ganhos e sucesso em um determinado contexto não significam a mesma coisa quando comparados a realidades diferentes e mais amplas. Eu me dei conta de que eu não era tão boa assim e hoje em dia eu entendo que eu nunca serei. Eu estudo cerca de 5 dias por semana, tenho muita mais experiência e provavelmente estou no melhor nível técnico da minha carreira, mas mesmo com todo esse trabalho árduo eu entendo que sempre haverá jogadores muito
melhores do que eu, muito mais telentosos e muito mais dedicados. 

Talvez você se encontre em uma situação semelhante e seja ganhador em determinados jogos, talvez no seu clube de poker local ou no app do seu celular, mas eu espero que você não se acomode como eu me acomodei e saiba distinguir que ser o melhor entre jogadores que não são muito bons, não te faz ser um ótimo jogador de poker no geral. Eu cansei de ver pessoas com o mesmo comportamento que eu apresentava e por onde olho ainda encontro pessoas assim. Sempre compita consigo mesmo, mantenha-se realista e humilde.

2- A VERDADE SOBRE SER UM JOGADOR PROFISSIONAL DE POKER

Filmes de poker como "007 Casino Royale" e programas que eu costumava assistir, como "poker after dark", não ilustram a realidade de um jogador profissional de poker. Quando eu decidi largar faculdade e o emprego para me dedicar somente ao poker, eu com certeza subestimei o quão dificil seria. Primeiro eu nem sabia direito o  que eu estava fazendo errado e quais passos deveriam ser tomados. Muito menos, eu esperava que para jogar em nível competitivo ao redor do mundo, eu teria que estudar, seguir uma rotina e no final das contas, exercer praticamente um trabalho tradicional. Eu também não sabia que mesmo me dedicando eu iria enfrentar longos periodos sem êxito. E o mais difícil, eu não sabia a resiliência emocional que eu teria que desenvolver, afinal eu não sabia lidar com a volatilidade dos resultados de um jogador de poker profissional, também não sabia como manter meu controle emocional, foco e determinação.

Durante a minha trajetória eu conheci muitos jogadores que eram meus ídolos e que eu achava que viviam uma vida plenamente glamourosa. Alguns deles nem jogavam tão bem o quanto eu pensava e outros na verdade eram super estudiosos e não levavam uma vida tão tranquila assim. Na maioria dos casos, o jogador profissional de poker tem que estudar e trabalhar muito, algo que eu não imaginava até me tornar uma.

 

3- RESPEITAR O SEU OPONENTE

É inacreditavél a quantidade de jogadores que subestimam os seus oponentes. Seja por conta de aparência, observação de uma jogada isolada ou por ego, nós sempre devemos tomar muito cuidado antes de julgar um jogador. A maioria de nós comete muitos erros todas as vezes que jogamos e a verdade é que nós não sabemos tanto assim. Viver subestimando os seus adversários pode ser um sinal de insegurança e ocassionar em tiros no pé na mesa de poker.

 

vivi saliba e kara

 

Gostaria de ressaltar que mesmo sendo um caminho dificil, eu sou muito grata ao poker por todas as oportunidades que esse esporte me proporcionou. Amigos, carreira, amor, flexibilidade, indepência financeira e aprendizado pessoal, são só algumas das muitas qualidades presentes na minha vida hoje em dia por conta do poker. Seja por diversão ou negócios, eu tenho certeza que o poker pode também te proporcionar coisas maravilhosas e que nós todos podemos aprender muito, inclusive sobre nós mesmos, praticando esse esporte.

Esses foram alguns pontos em que eu mudei bastante a minha percepção ao decorrer dos anos. Já dizia Raul Seixas 'Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo', portanto, sei que tenho muito a aprender e, por que não, mudar a minha visão. Mas isso fica para o próximo artigo que escreverei no futuro.

Boa sorte e nos vemos nas mesas!

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Depois de se destacar no verão de 2017, Vivian “Vivi” Saliba foi recebida como embaixadora na equipe do 888poker. Naquele ano, a jovem de 24 anos se tornou a mulher mais nova a entrar no Main Event da World Series of Poker.

Vivi aprendeu poker aos 12 anos jogando em uma viagem em família. Seis anos depois, seu pai a levou para um clube de cartas e ela se sentiu atraída pelos aspectos sociais do jogo. Cinco anos depois disso, Sailba se tornou profissional com foco em seu jogo favorito, pot-limit Omaha.

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